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Valores para viver

14 de outubro de 2009

EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JUNIOR

Cesusc e Ufsc

Os valores mudam, inclusive para permanecerem. Mas valores morrem, bons e ruins e outros simplesmente nascem, desembocando na tentativa de se tradicionalizar. A força da tradição é estranha. Sofre o efeito do trator das inovações, embora cobre altos juros pelo desprezo de sua forma, simbolicamente estruturada para forjar liames de conviviabilidade. Tomemos o caso da religião e o da família para uma reflexão preliminar.

As religiões permanecem,e se modificam, e se multiplicam. Reformam-se e produzem cismas. Progresso e fundamentalismos em profusão. Pentecostalismos universalizam-se como case de empresas totais. Xiitas no poder investem na energia nuclear e negam o holocausto. Mas há mãos estendidas para prisioneiros, em prisões e fora delas, que a palavra divina, não importa de onde venha, ou por que tipo de missionário, ela opera, e salva, e conforta.

Também a família se metamorfoseia, mas permanece como um vínculo vital, para o indivíduo, e não para o mercado. No século XX foram muitos os ensaios inovadores, do casamento aberto ao ménage a trois, sem contar a carnavalização dos bacanais marcados pelos drogadictos de todas as tribos, dos nudistas aos partidários do jeans, chegando aos bacanas com Black tie.

Até hoje uma certa classe média (mesmo pequeno burguesa ou burguesa) alimenta novas formas religiosas, seguindo os rituais da curtição da cocaína ao da “sedução” de prostitutas de alto padrão, ou das modelos sem carreira. Tudo funciona naquela lógica do ateu graças a Deus.

Os italianos dizem que os grandes sistemas que tendem deslocar para o racional as explicações não metafísicas da existência, o Marxismo, o Freudismo, o Sistemismo, entre outros sistemas totais de pensamento, funcionam como segundas religiões, e sustentam que religião por religião, fiquemos com as primeiras, mais originais e menos arrogantes. Afinal, toda religião implica em fé, mesmo para as que não a vêem em oposição à Razão.

A família monogâmica se reforça na exata medida em que implode enquanto mito. Hoje se sabe que a fidelidade é um mito, ou funciona como tal. Um mito em termos lingüísticos alude para elidir. O Homem (homens e mulheres) não são fiéis mas podem estar fiéis. Levando-se em consideração a promiscuidade do mercado afetivo-sexual, pode valer a pena estar fiel, vale dizer consciente da empresa que é estar sem ser. Uma tarefa improvável, mas absolutamente necessária. Afinal, a prole espera por referências e atitudes estruturadas. Por mais que se queira naturalizar a adoção por parte de casais gays, e com toda a grandeza judaico-cristã que implica as adoções, não é óbvia a tese de que importa amor, não as referências homo ou hetero na formação comportamental e das estruturas psíquicas das crianças adotadas.

Uma confusão se estabelece na ruptura com a tradição antiga na postulação de uma nova tradição. Por exemplo, tomada como ópio por Marx, a religião passa a ser considerada uma ideologia, no sentido de inversão compreensiva do real, uma mentira, em uma palavra. Mas que dialética é essa que considera uma manifestação cultural cristalizada no senso comum como uma coisa falsa. Uma idéia, uma forma cultural é sempre uma expressão viva da eficácia simbólica, que funciona e gera efeitos. Também no caso da crítica a família monogâmica, considerada burguesa, os equívocos são imensos. Claro que a racionalização do afeto e do sexo na ritualística do casamento funciona como um obliterador da libido. Difícil manter a libido em dia no dia-a-dia de um casal, rareando a intensidade e a qualidade das relações entre os cônjuges. O fato da mudança de parceiros resultar de uma satisfação à maior atração que se tem habitualmente pelo terceiro, não deve conduzir a culpas e a mea culpa, até por que não há se falar em culpa.

Mas os casamentos abertos conduziram a fracassos de toda a ordem, recriando machismos e ciumeiras de todos os lados. O ménage à trois continua válido como fetiche entre casais interessados em quebrar a rotina, embora nem sempre um dos cônjuges continue a ver o fetiche como prova de saúde, tornando-o doentio, o que invalida o experimento. O que tem prevalecido em tempos de angústia existencial e no contexto de crises imensas, de paradigmas, política, cultural, religiosa, é a aposta na sociedade conjugal, talvez menos marcada pelo dogmatismo e fundada no diálogo. Sexo por sexo ninguém se casa. A vida de solteiro é sempre uma vida, digamos, com nota mínima sete. Vida a dois significa desafio, aventura, visão empresarial única, e muita, mas muita sorte. Mas ela existe, e a exceção pode confirmar a regra. Sem contar o respeito aos filhos, e aos direitos deles de terem pais, educação, valores sólidos, para enfrentarem um mundo ainda mais competitivo e pleno de armadilhas, como o é o nosso neste século XXI.

A tradição pode mudar seus conteúdos, mas ela exige uma forma, um ritual, um habitus para a reprodução social. A bissexualidade é apontada por Navarro como uma busca de nova forma para conteúdos já existentes na vida real, e que tenderá a se ampliar no decorrer deste século, assim como o homo-afetivo, em relação ao hetero-afetivo, confrontados no século XX, com amplo avanço do primeiro, hoje já não mais considerado uma aberração.

Para finalizar, eu diria que temos necessidade da tradição como cimento para solidariedades importantes para a reprodução social, inclusive a genética. Não adianta negarmos os vínculos tradicionais da tradição, mas compreendê-los, redefini-los, com proveito em termos de produção de novos liames sociais. Nada adianta substituir a religião pela cocaína, ou pela psicanálise, tampouco pelo Deus Karl Marx. Também não vale a pena acusar a desgastada e desmoralizada família tradicional como um malefício em si quando consideramos o sofrimento humano, tentando-a substituir por ousadas experiências alternativas, válidas como todas as experiências (as quais possamos sobreviver…). Melhor investir em relações a dois sem as mesmas ilusões da cara-metade, ou da outra parte da maça, pois pode ser do abacaxi…

Cazuza tinha razão, precisamos de uma ideologia prá viver. Eu diria, precisamos de tradições para sobreviver.

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From → Filosofia, Sociologia

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