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Manifesto, Modernidade e Direito.(4)

11 de novembro de 2008

4. Uma hipótese para finalizar.


Edmundo Lima de Arruda Junior

Presidente do CESUSC

A resistência contra a barbárie neoliberal passa pela herança iluminista de Marx, mas exige a ruptura com uma compreensão teórica paralisante, precisamente a que engessa Marx em um sistema ontológico, impedindo que o marxismo seja passível de atualização, ou reformista[8] em relação ao seu corpus. A postura heterodoxa do marxismo parte da superioridade de seu estatuto epistemológico para a compreensão dos dilemas e absurdos aos quais nos conduziram as modernizações capitalistas e dos socialismos reais, mas entende que a Modernidade de Marx já resultou de um diálogo com outros sistemas, a começar pelo liberalismo, que não deve ele mesmo ser escravizado e restrito à ideologia da burguesia em ascensão.

O mercado pré-existiu ao modo de produção capitalista e a ele deverá subsistir, devendo ser pensado pelos socialistas como uma realidade a ser reconstruída (o mercado) e não eliminado.[9]

Também a tradição socialista anterior a Marx deve ser considerada (por que não Kaustky e Bernstein, e os anarquistas que não se esqueceram de Kromstad ?…). Um pensador pós-Marx, Freud, por exemplo, pode ajudar a enriquecer a análise do homem moderno, dilacerado com sua condição de ser moderno e pré-moderno, ser moderno e pós-moderno, experimentando o vazio que é o drama existencial das classes médias (pequena burguesia moderna), em grande medida, o drama da intelectualidade (o pêndulo vai da dificuldade de adquirir um carro importado, o último modelo de celular, ou a angústia de se deparar lutando por emprego ou pela manutenção do mesmo) e o vazio do estômago dos que têm fome e sequer se encontram entre os explorados (gostariam de sê-lo), e já não conseguem mais sonhar, porque o status quo lhes condena a ser galinhas e não águias, segundo Leonardo Boff, pois perderam o Direito de pensar e agir.

Finalizando, acreditamos que são tarefas urgentes para a redefinição dos impasses das esquerdas a observância de Marx aos trabalhadores do mundo: Uni-vos. Este mesmo Marx que no final da vida ao ver o que os seus seguidores faziam em seu nome, afirmou:”Se isso é marxismo, eu não sou marxista“.

A Modernidade nos legou instituições que se sobrepõem aos interesses burgueses. Sem o Estado de Direito Democrático, o capital se reproduz à la Hitler, dispensando as mediações do sufrágio universal, a alternância no poder, a tolerância ideológica, enfim, a mediação da política é substituída pela racionalidade instrumental do mercado puro, o que quer a globalização neoliberal, ou barbárie (inclusive no nível de progressão geométrica da depredação do meio ambiente, o que faz emergir as teses socialistas dos ecologistas)[10] que nos conduz à pré-Modernidade (emergência de guerras religiosas, fundamentalimos de várias ordens, etc.).

Sem entrar na crítica liberal (desde Glucksmann até F. Feher) de que há incompatibilidade entre o pensamento de Marx e Engels e a questão democrática[11], que parece exagerada, as esquerdas sectárias necessitam superar uma compreensão instrumental da democracia[12], passando a considerar a democratização um valor universal[13]. Sem essa superação a história tenderá a se repetir, como tragédia e morte anunciada, retardando a reconciliação do homem com a Humanidade.

Novas demandas sociais encontram-se presentes no alvorecer do século XXI. O mundo cunhado por Marx por vezes parece ainda mais marcado pela violência, exploração e exclusão. A luta de classes não acabou, mas tornou-se muito mais complexa, colocando como mais complexa a proclamação de unidade global dos trabalhadores. Essa unidade parece ser possível não fora da legalidade, mas dentro dela, a começar pela luta por eficácia jurídico-social dos direitos fundamentais, atropelados pela razão do mercado financeiro. Questões de gênero, questões étnicas, questões ecológicas não elidem os conflitos de classe mas explicitam outras ordens de conflitos no interior das classes sociais, fragmentando-as por diferenciação crescente, por integração ao consumo ou por exclusão do mesmo (os sem-teto também constituem”novos movimentos sociais”). Os trabalhadores unidos são uma abstração somente unificáveis dentro de pautas plurais concretas, amplas, cada vez menos verticalizadas e mais transversais. Se a idéia heróica de um partido único parece sucumbir a sua tentação de subsumir fantasiosamente a realidade numa pressuposta unidade burocrática de uma vanguarda sem retaguarda, resta-nos a capacidade de tentar fazer do marxismo um movimento, atualizando-se enquanto reformismo-revolucionário.

O comunismo da idade industrial depara-se como o”comunismo da idade informacional“. [14] As citações que abrem este artigo indicam que O Manifesto aponta princípios que abrem uma hermenêutica para os novos tempos deste século XXI.


[1]Preparado para o Seminário 150 anos do Manifesto, UFPR, Curitiba, 22.7.98.

[2] No artigo 2, inciso 3 dos estatutos da Liga dos Comunistas, aprovada em dezembro de l947, com a presença de Marx e Engels tem-se como uma das condições para ser membro da mesma:”profissão de fé comunista”.

[3] Cf. prefácio ao Manifeste du Parti Communiste. Paris: Le livre de poche, l973.

[4] Um estudo sobre a proximidade do jovem Marx do Idealismo Prático de Kant e Fichte, com forte presença dos ideais da Revolução Francesa na tradição marxista, consultar GUILHAUMOU, Jacques. Révolution française et tradition marxiste: Un itinéraire d’historien au plus près du jeune Marx. Congrès Marx International. Paris, l995.

[5] Cf. prefácio de Marco Aurélio Nogueira à edição brasileira do Manifesto do Partido Comunista. 7ª ed. Petropólis: Vozes, l997. P. 31.

[6] Idem. P.25.

[7] Cf. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da Modernidade. Trad. Carlos Felipe Moisés e Ana Maria Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras,1992. p. 100.

[8] Consultar o texto de DUMÉNIL, Gérard e LÉVY, Dominique. Mutation du capitalisme? Révision du marxisme? Congrès Marx International, Paris, l995.

[9] Sobre, BIDET, Jacques. Critique de la Modernité. Paris: Puf, l990. E BARRÈRE, Christian. Liberté, Égalité e Marché. Ordre marchand et ordre républicain. Congrès Marx International. Paris, l995.

[10] Por exemplo LPIETZ, Alain. L´écologie politique et l´avenir du Marxisme. Congrès Marx International. Paris. 1995.

[11] Sobre isso, consultar o excelente texto de TEXIER, Jacques. Révolution et démocratie dans la pensée de Marx e Engels. Congrès Marx International. Paris, l995.

[12] Posição atual de Carlos Nelson Coutinho, registrada em sua conferência de encerramento do I Congresso Internacional de Neo-socialismo, dia 29 de março, Florianópolis, l998.

[13] A questão da violência engendrada pelo imperialismo do novo liberalismo deve ser pensada tanto como conseqüência como reação. Sobre isso, JAMESON, James. Cinq thèses sur le marxisme réelement existant. Congrès Marx International. Paris, l995.

[14] Cf. expressão de SÈVE, Lucien. Dépassement du capitalisme et question communiste. Congrès Marx International, Paris, l995.

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