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A estoria do Cabeçudo

21 de julho de 2008

Na cidade havia um senhor cujo apelido era Cabeçudo.

Nascera com uma cabeça grande, dessas cuja boina dá pra botar

dentro, fácil, fácil, uma dúzia de Laranjas.

Mas fora isso, era um cara pacato, bonachão e paciente.

Não gostava, é claro, de ser chamado de Cabeçudo, mas desde os

tempos do grupo escolar, tinha um chato que não perdoava. Onde quer

que o encontrasse, lhe dava um tapa na cabeça e perguntava:

– ‘Tudo bom, Cabeçudo’?

O Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre

zombando dele.

Um dia, depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo meteu a

faca no zombeteiro e matou-o na hora. A família da vítima era rica;

a do Cabeçudo, pobre.

Não houve jeito de encontrar um advogado para defendê-lo, pois o

crime tinha muitas testemunhas. Depois de apelarem para advogados de

Minas e do Rio, sem sucesso algum, resolveram procurar um tal de ‘Zé

Caneado’, advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois,

como o próprio apelido indicava, vivia de porre.

Pois não é que o ‘Zé Caneado’ aceitou o caso? Passou a semana

anterior ao julgamento sem botar uma gota de cachaça na boca!

Na hora de defender o Cabeçudo, ele começou a sua peroração assim:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

Quando todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele repetiu:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

Repetiu a frase mais uma vez e foi advertido pelo juiz:

– Peço ao advogado que, por favor, inicie a defesa.

Zé Caneado, porém, fingiu que não ouviu e:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

E o promotor:

– A defesa está tentando ridicularizar esta corte!

O juiz:

– Advirto ao advogado de defesa que se não apresentar imediatamente

os seus argumentos…

Foi cortado por Zé Caneado, que repetiu:

– Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do júri.

O juiz não agüentou:

– Seu moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a

justiça é motivo de zombaria? Ponha-se daqui para fora antes que eu

mande prendê-lo.

Foi então que o Zé Caneado disse:

-Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu

queria chegar…

Vejam que: se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é

meritíssimo, que o promotor é honrado e que os membros do júri são

dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me

ameaçam de prisão…, pensem então na situação deste pobre homem,

que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de

Cabeçudo!

Cabeçudo foi absolvido, e o Zé voltou a tomar suas cachaças em paz.

Moral da história:

‘Mais vale um ‘Bêbado Inteligente’ do que um ‘Alcoólatra Anônimo!’

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From → Direito, Intervalo

2 Comentários
  1. paulo permalink

    Muito boa a historia
    uma moral
    incrivel e o advogado e otimo

  2. anderson permalink

    daora mesmo, o cara parece um maluco do trabalho

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